Finanças

CDI, IPCA+ ou prefixado: a pergunta certa não é qual rende mais

Grupo RZND · 05 de setembro de 2026

Três ofertas na mesa: uma paga 110% do CDI, outra promete IPCA + 6%, a terceira trava 9,5% ao ano. A pergunta que quase todo mundo faz primeiro — qual rende mais — é a pergunta errada. Não porque os números não importem, mas porque essas três taxas respondem a perguntas diferentes, e comparar o percentual sem saber o que cada uma protege é como comparar preço de guarda-chuva com preço de protetor solar sem perguntar antes se vai chover ou fazer sol.

Pós-fixado — geralmente atrelado a um percentual do CDI — acompanha a Selic. Se a taxa básica sobe, o rendimento sobe junto; se cai, cai também. É a modalidade que menos exige uma aposta sobre o futuro: você não precisa adivinhar se os juros vão subir ou cair, porque o retorno se ajusta sozinho ao que de fato acontecer. O trade-off é que, se as taxas caírem bastante, o rendimento cai com elas — sem teto, mas também sem piso.

Indexado à inflação — o IPCA+ — garante um retorno real acima da inflação, travado no momento da compra. Isso resolve um problema específico: preservar poder de compra ao longo de prazos longos, quando a preocupação não é "quanto vou ganhar em reais", mas "quanto isso ainda vai valer lá na frente". O detalhe que costuma pegar as pessoas de surpresa é a marcação a mercado — se o papel for vendido antes do vencimento, o preço flutua conforme a expectativa de juros do momento, e é perfeitamente possível vender no prejuízo um título que, se segurado até o fim, pagaria exatamente o combinado.

Prefixado trava uma taxa nominal, ponto final — não importa o que aconteça com a Selic ou com a inflação depois. Faz sentido quando a taxa oferecida hoje parece boa o suficiente para travar, e existe convicção de que segurar o papel até o vencimento é viável. O risco mora nos dois extremos: se a inflação surpreender para cima, o retorno real encolhe; se precisar vender antes do prazo, o preço também oscila com a expectativa de juros, do mesmo jeito que o IPCA+.

O erro não é escolher a modalidade errada. É escolher sem saber o prazo.

Reparando nos três riscos descritos acima, tem um padrão: os problemas de IPCA+ e prefixado aparecem quando o dinheiro precisa sair antes da hora combinada. Isso significa que a decisão mais importante não é "qual das três rende mais" — é "por quanto tempo esse dinheiro pode ficar parado sem que eu precise mexer". Um Tesouro IPCA+ 2035 é uma ferramenta excelente para quem não vai precisar desse dinheiro antes de 2035. É uma ferramenta arriscada para reserva de emergência, não porque o papel seja ruim, mas porque a reserva de emergência existe justamente para ser usada em momento imprevisível — e "imprevisível" é incompatível com "só funciona bem se eu não mexer".

Vale nomear também o que parece óbvio mas continua sendo esquecido: comparar 110% do CDI com IPCA + 6% exige uma projeção de cenário. Se a expectativa é de Selic em queda ao longo do período, os 110% do CDI tendem a render menos, em termos absolutos, do que pareciam render no dia da contratação. Isso não é falha de nenhum dos dois produtos — é a natureza de comparar algo que se move (CDI) com algo que já está fixado no compromisso (IPCA+, prefixado). Qualquer comparação de taxa que ignore essa diferença de natureza está comparando números que não significam a mesma coisa.

As informações apresentadas neste artigo têm caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constituem recomendação, análise personalizada, oferta ou orientação de investimento, e não substituem a consulta a um profissional ou instituição habilitada. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.

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